Eduardo Vítor Rodrigues
Por uma nova geração de política(s) (públicas)
Quinta-feira, Dezembro 22
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Sexta-feira, Outubro 21
O PS e este Orçamento de Estado: o caminho não é para o abismo!
Uma semana depois da conferência
de imprensa de Pedro Passos Coelho, a anunciar as linhas gerais do Orçamento de
Estado (OE) para 2012, o governo apresentou o documento final.
Vale a pena agora tratar o
documento existente e não do documento imaginário de há uma semana. Nessa
altura, Passos Coelho apenas desvendou o corte do subsídio de férias e de
Natal, além de umas afirmações genéricas, simplistas e obscurantistas. Genéricas,
porque Passos Coelho limitou-se a apreciações globais e a reflexões abstractas;
simplistas, porque disse coisas básicas e, por tal, sem sustentação ou
profundidade nenhumas; obscurantistas, porque desprezou assuntos centrais no
debate sobre o aumento da dívida, como o contributo da Madeira e do BPN.
Neste quadro, importa deixar uma
mensagem clara sobre o comportamento político que, a meu ver, deve ter o
Partido Socialista.
É clara a minha noção de
responsabilidade nacional, que não pode levar a que o PS esteja contra tudo e
contra todos. O BE e o PCP fazem isso melhor do que o PS. Para além do mais, o
PS assinou o Memorando de Entendimento com a Troika, que contempla um conjunto
de medidas que o PS não pode agora recusar. Mas somente essas e não outras.
Compreendo também que o espectro
da governação não pode alinhar em lógicas populistas; não faz parte do “código
genético” do PS afirmar-se pelo populismo, pela demagogia ou pelo esquecimento
sobre o passado. Também nisso o BE e o PCP estão mais à-vontade: não tiveram
pejo em mandar o governo ao charco, levar o andor da direita ao poder e agora
abrirem a boca contra o neoliberalismo que ajudaram a eleger. Afinal, estavam à
espera do quê?
É neste quadro de
responsabilidade política, de compreensão pelas lógicas de governação e do
plano de assistência financeira internacional, mas também de demarcação
político-ideológica face aos mais brutais ataques de sempre feitos ao país,
vindos da direita, que entendo que o PS só pode assumir uma atitude perante o
país na votação do OE-2012: votar contra.
Votar contra deve ser a acção
política, sempre condicionada à precedente tentativa séria de mudar as questões
mais estapafúrdias deste OE, ajustando as medidas e alterando o que há a
alterar. E é muito.
Explicito por tópicos, referindo
apenas aqueles que mais reforçam a minha análise:
1. O governo preparou um OE com medidas brutais, radicais e
impensáveis, sem uma única palavra prévia ao PS. Lembro que o PS, sempre que
apresentou um PEC, dialogou com o PSD. O governo de direita ignorou o PS,
porque não precisa dos votos do PS; deixou com isso um sinal evidente de
desprezo pelo PS e de desrespeito institucional face a um dito documento de
crise. Desprezo.
2. O governo ignorou o papel do BPN e da Madeira no aumento
da dívida, que justifica as medidas drásticas assumidas no OE. O governo
tentou, dessa forma despudorada, responsabilizar a governação de José Sócrates,
como se mais nada haja ocorrido. Camuflagem.
3. O Governo joga classes médias contra classes médias,
pobres e remediados contra pobres e remediados. O governo, ao visar os
funcionários públicos, tenta alimentar a inveja social, sem perceber que, em
Portugal, o funcionalismo público reboca os direitos e as regalias dos
funcionários das empresas privadas. Como era expectável, foram apenas
necessários uns dias para F. van Zeller vir dizer que os privados também têm
problemas e que admite não pagar os subsídios em 2012, para defender o emprego.
Sectarismo.
4. O governo aposta num processo de enfraquecimento e de
empobrecimento das classes médias e dos funcionários públicos. Provoca, assim,
uma enorme desmotivação nos funcionários, arrasados por um exagerado conjunto
de ataques fiscais e salariais. Mas, pior do que isso, o governo provoca a
desmoralização destas pessoas, torna-os socialmente desvalorizados, atira
classes profissionais umas contra as outras e, a prazo, coloca chefias contra
subordinados, dirigentes contra dirigidos. A desmoralização serve o propósito do
governo de manter as pessoas inertes e prostradas, mas arrasa com a qualidade
de resposta de um conjunto alargado de funções insubstituíveis do Estado
moderno. Desmoralização.
5. O governo agiu cinicamente: diz que visa apenas os
funcionários públicos, porque estes ganham mais, em média, do que os privados.
Isso é simplista e a razão é falsa: o governo não cortou os subsídios de férias
e de Natal dos trabalhadores do sector privado, porque deles recebe o
respectivo IRS. A verdade é que, se legislasse pelo corte desses subsídios aos
privados, o governo perdia a receita do IRS sobre esses dois subsídios.
Oportunismo.
6. O governo avança para um processo de pauperização de
vastas camadas da população, fazendo um saque financeiro às famílias, numa
linha nunca prevista pelo Memorando. Brutalidade.
7. O governo saca os subsídios de férias e de Natal, como
se estas verbas fossem excedentes ou complementos salariais. Ora, toda a gente
percebe que estes subsídios foram formas de organização do modelo distributivo
do salário em 14 meses. Ou seja, estes subsídios são parte integrante do
salário. Usurpação.
8. O conjunto de aumentos de impostos directos e indirectos
ultrapassa largamente o Memorando. Duplo exagero.
9. O governo esqueceu, mais uma vez, a tributação bancária
e às mais-valias especulativas. Preconceito ideológico.
10. O dinheiro que está a ser sacado às famílias não vai
para o reforço da economia real. Vai para tapar buracos e financiar bancos, que
se recusam a usar os 12 mil milhões disponíveis da Troika, porque não querem
ceder zonas de poder ao Estado. Sectarismo.
11. O dinheiro que as famílias perdem secará a economia e
lança milhares de famílias numa situação desesperada. Insensibilidade.
12. O governo ignora a Europa. Ou pior, mostra que não tem
força de negociação e mostra-se subserviente ao diktat europeu, sob o pretexto
de que nos estão a financiar. Isso não é fazer política, é fazer contabilidade
de mercearia. Para isso não precisava de um primeiro-ministro, bastava uma
dona-de-casa. Impotência.
13. Este OE não ignora o crescimento económico; impede-o,
de forma estrutural e duradoura. Este OE gera mais crise, que, por sua vez,
diminuirá a receita fiscal e implicará mais impostos para compensar a redução
de receita, e por aí diante, numa lógica de ciclo vicioso de pobreza e de
recessão. Hipotecário do futuro.
14. Este OE ataca um grupo social que deveria permanecer
intocável: os idosos com baixas pensões. Atira-os para a dependência, para o
empobrecimento e para a caridade. E este OE ataca a grande prioridade de
qualquer sociedade democrática: o emprego. Ataca o emprego, cria mecanismos
para mais desemprego, fragiliza famílias, cria as condições para o surgimento
abrupto de muitos “novos pobres”, com consequências muito prolongadas. Hipotecário
do presente.
15. Este OE destrói de forma destemida e provavelmente
irreversível conquistas sociais que nunca foram luxos, foram sempre, e
continuam a ser, políticas mais ou menos activas de inclusão, de combate à
pobreza e à sua intensidade. Hipotecário do passado.
16. Este OE corta estupidamente na saúde e na educação, ao
mesmo tempo que reforça acordos com hospitais privados e paga mais a contratos
de associação com escolas privadas. Radicalismo ideológico.
17. Este OE apenas aumenta na segurança e nas forças
policiais. Não digo que não se justifique. Mas este exclusivo reforço
financeiro mostra um governo que teme a conflitualidade que ele próprio gerou.
Securitarismo.
18. Este é um OE que hipoteca definitivamente o que restava
da confiança dos cidadãos nos políticos. Faz o que jurou não fazer, assume o
que prometeu nuca realizar, justifica o que afirmou nunca poder ser viável. Com
ele, hipoteca a democracia, a confiança nas instituições e a verdade na vida
pública. Fraude política.
19. Este OE cria um clima de guerra social, uma lógica de
pânico moral e um medo do futuro, que instala enormes receios objectivos e
subjectivos. Daqui resulta, não apenas um clima de instabilidade e de
conflitualidade social, mas uma efectiva fractura social que vai incrementar a
demolição de laços sociais e de redes de solidariedade fundamentais. Ruptura
social.
20. Este governo substituiu políticas sociais por caridade,
sob o pretexto de que as políticas sociais desincentivam ao trabalho e estão
atravessadas por fraudes e oportunismos.
Em jeito de remates finais, umas
simples constatações. Desde logo, a clara percepção que o ministro Vítor Gaspar
é um erro de casting, percepção cada vez mais evidente sempre que ele fala. Se
o ministro Álvaro é uma inexistência, o ministro Vítor Gaspar é uma dramática
omnipresença, um verdadeiro elefante numa loja de porcelanas.
Nada disto estava previsto no
Memorando de Entendimento com a Troika. Isto não é só o produto da crise e dos
problemas actuais. Isto é um ajuste de contas dos teóricos inspirados em
Chicago, sedentos de fazer a vingança contra a História.
O que está em causa não é sequer
uma redução de salários ou um corte de subsídios. O que está em causa é uma
efectiva ruptura do contrato social que fundou o modelo das últimas décadas em
Portugal e na Europa. Isso está a ser destruído, dando lugar ao individualismo,
à desconfiança, à quebra dos laços de solidariedade e de protecção universal
face aos riscos sociais. A sociedade não pode sobreviver muito tempo quando o
sentimento de injustiça ganha força, quando proliferam as desigualdades, o
empobrecimento e a desconfiança dos mais variados actores sociais. Nenhuma
sociedade se pode fundar na ganância, na fraude, na corrupção e no ganho fácil
à custa do empobrecimento de vastas camadas da população e da degradação
estratégica dos serviços públicos.
Não julgo a má-fé ou a boa-fé
deste governo. Não há boa-fé que nos valha quando o erro de diagnóstico e de terapêutica
é colossal. Verifico o erro, os equívocos, a falácia, a incompetência.
Alternativas? Existem. Assim o
queiram. Mutualização da dívida europeia; renegociação das PPP; redução séria
dos financiamentos aos privados em sectores sociais, como a educação e a saúde;
tributação dos ganhos bolsistas; criação de um tecto máximo de pensão de
reforma; incentivos ao microcrédito para pequenos negócios; criação de um
escalão excepcional de IVA para produtos de luxo; taxação excepcional das
empresas quase-monopolistas (PT, EDP, Galp, etc.); venda de concessões de transportes
metropolitanos; apoio ao emprego por via do “emprego subsidiado”, acabando com
os programas ocupacionais; e muito muito mais. A questão é simples: há outros
caminhos, há outras soluções, sobretudo caminhos que não nos conduzam à “tragédia
grega”.
Acredito que os partidos ouçam e
respeitem a Comissão Europeia e o Presidente da República. Ambos mostraram que
o governo está errado. A CE explicou que o aumento da dívida não se deve a
deslizes, mas ao défice descoberto na Madeira e à conjuntura recessiva
europeia. O Presidente da República, por sua vez, disse que não havia “equidade
fiscal” neste OE e que se tratava de uma “violação de um princípio básico de
equidade fiscal”, assumindo “dúvidas sobre o OE”, esperando que o governo “corrija
o OE”.
Não há, por isso, margem. Ou o
governo emenda a mão e altera esta calamidade, ou o PS só pode votar contra.
Votar contra é, caso nada seja revisto, a resposta a este documento político e
a este tempo histórico.
Eduardo Vítor Rodrigues
21/10/2011
Sexta-feira, Agosto 5
Terça-feira, Julho 12
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